segunda-feira, 11 de julho de 2016

Vidros Coloridos


Conta-se que, há muito tempo, um habilidoso calculista persa, chamado Beremiz Samir, prestava serviços de secretário a um poderoso vizir.

Sua capacidade de raciocínio matemático a todos causava profundo espanto. Ele era capaz de, em poucos segundos, elaborar cálculos de extrema complexidade, resolvendo questões intrigantes.

Formulava, às vezes, sobre os acontecimentos mais banais da vida, comparações inesperadas, que denotavam grande agudeza de espírito e raro talento matemático.

Sabia, também, contar histórias e narrar episódios, que muito ilustravam suas palestras, por si só atraentes e curiosas.

Em função disso, a fama de Beremiz ganhou excepcional realce.

Na modesta hospedaria em que vivia, os visitantes e conhecidos não perdiam a oportunidade de lisonjeá-lo, com repetidas demonstrações de simpatia e de consideração.

Além disso, diariamente, o calculista via-se obrigado a atender a dezenas de consultas.

Todos o buscavam a fim de obter as mais variadas orientações e conselhos.

Beremiz os atendia com paciência e bondade.

Esclarecia a alguns, dava conselhos a outros.

Procurava destruir as superstições e crendices dos fracos e ignorantes, mostrando-lhes que nenhuma relação poderá existir, pela vontade de Deus, entre os números e as alegrias, tristezas e angústias do coração.

E procedia dessa forma, guiado por elevado sentimento de altruísmo, sem visar lucro ou recompensa.

Recusava, sistematicamente, o dinheiro que lhe ofereciam e, quando um rico insistia em pagar a consulta, Beremiz recebia a bolsa cheia, agradecia e mandava distribuir integralmente a quantia entre os pobres do bairro.

Certa vez, um mercador, chamado Aziz, empunhando um papel cheio de números e contas, veio queixar-se de um sócio a quem tratava de ladrão miserável.

Beremiz tentou acalmar o ânimo exaltado do homem e chamá-lo ao caminho da mansidão.
Aproximou-se e falou-lhe calmamente:

Acautelai-vos contra os juízos arrebatados pela paixão, porque esta desfigura muitas vezes a verdade.

Aquele que olha por um vidro de cor, vê todos os objetos da cor desse vidro: se o vidro é vermelho, tudo lhe parece rubro; se é amarelo, vê tudo amarelado.

A paixão está para nós como a cor do vidro para os olhos.

Quando alguém nos agrada, é fácil desculpar. Se, ao contrário, nos aborrece, condenamos ou interpretamos de modo desfavorável.

A seguir, examinou com paciência as contas e descobriu nelas vários enganos que desvirtuavam os resultados.

Aziz certificou-se de que havia sido injusto para com o sócio, e tão encantado ficou com a maneira inteligente e conciliadora de Beremiz, que saiu dali com o coração modificado.
Muitas vezes, o nosso ponto de vista nos permite perceber apenas uma face deturpada da realidade.

Não é raro acreditar cegamente em equívocos, graças ao nosso orgulho exacerbado e ao nosso velho egoísmo.

Antes de adotar qualquer postura de confronto ou de sofrimento, é necessário abandonar os vidros coloridos que utilizamos para ver e analisar o mundo e as pessoas.

A imparcialidade perante a vida é uma posição que devemos buscar incansavelmente, a fim de garantir aos nossos atos, palavras e pensamentos, a justiça que desejamos encontrar nos outros.


Redação do Momento Espírita, com base no cap. 17, do livro O homem que calculava, de Malba Tahan, ed. Record. 
Em 30.3.2016.




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