terça-feira, 20 de agosto de 2013

"Indaga você das razões que induzem o Divino Poder a conservar uma pobre jovem, vestida de chagas, num catre humilde, relegada à assistência pública. E acrescenta: "Por que motivo expor uma infeliz menina a semelhante flagelação? Não haverá misericórdia para os seres que se arrastam na pobreza, quando há tantos sinais de socorro celeste, na casa dos felizes, quinhoados pelo conhecimento superior e pela mesa farta?" Não fora a reencarnação, chave do crescimento espiritual e do soerguimento redentor para todas as esferas da vida terrestre, as suas perguntas seriam realmente irrespondíveis. Entretanto, meu amigo, a existência humana, em seus fundamentos, obedece aos comezinhos princípios de lógica e harmonia que prevalecem na sementeira vulgar. Enquanto não cultivarmos a gleba planetária, em toda a sua extensão, seremos defrontados pela terra desventurada, aqui ou ali, povoada de serpentes traiçoeiras ou vitimada por imensas feridas de erosão. Se não plantamos com acerto, não colheremos irrepreensivelmente, e, se nos despreocupamos da vegetação daninha ou inútil, viveremos incomodados pelos cipoais e pelos espinheiros de toda sorte. Espanta-se você, ante a dor, mas não se reporta aos débitos contraídos. Vê a cinza e não recorda o incêndio que a produziu. Em matéria de compromissos não resgatados e de sofrimentos que os seguem, somos surpreendidos pelos remanescentes de nossos velhos delitos, à maneira do crente em desespero, constrangido a recolher os pedaços dos próprios ídolos, que o tempo esfacelou em sua marcha invariável. É a Lei que se cumpre, harmoniosa e calma. E não me diga que há desequilíbrios nos processos em que funciona, porque, na atualidade do mundo, temos a considerar a questão da "massa" e o problema do "resíduo". A evolução garante novos panoramas ao direito, mas ainda explodem guerras pela hegemonia da força; a ciência resolveu os enigmas da alimentação, entretanto, ainda há quem morre de fome pelas úlceras do duodeno; a liberdade triunfou sobre a escravidão, contudo, ainda existem milhões de encarcerados na superfície da Terra, e, se é indubitável que o duelo e o envenenamento fugiram dos costumes tribais nos povos mais cultos, as mortes violentas e deploráveis continuam, aos milhares por ano, na própria engrenagem da maquinaria do progresso. Tenho reencontrado amigos de outras eras que, endividados perante os tribunais da justiça Divina pelas fogueiras que atearam no passado às vítimas do seu desafeto, padecem hoje o "fogo selvagem" na intimidade da organização fisiológica, em que retornaram à experiência física, porque a vanguarda moral do mundo não mais tolera a perseguição religiosa ou a desvairada tirania política, e tenho desfrutado a reaproximação com inolvidáveis companheiros do pretérito que, habituados a dilacerar a carne dos adversários, pelo simples prazer de ferir, contemplam, agora, a ruína do próprio corpo, nas aflitivas amarguras de leprosários e sanatórios. A fogueira que extingue a dívida chama-se hoje "pênfigo foliáceo", e o golpe de ontem, sangrando os que sangraram, é conhecido por "bacilo de Hansen". No fundo, porém, meu amigo, tudo é reajuste benéfico. Imagine a vida na Terra como sendo um manancial imenso, de cujos bordos se derramam correntes cristalinas em todas as direções: é a "massa" progredindo, valorosa, na direção de sublimes horizontes. E pensemos em nós, indivíduos arraigados ainda ao mal, como sendo o lodo das margens ou a lama do fundo: é o "resíduo" estacionário, sofrendo a necessidade de grandes transformações. Semelhante quadro fornece pálida notícia da verdade. Assim sendo, que Deus nos fortaleça e abençoe no caminho da purificação." (Irmão X)




Meios e fins

 

"Os fins justificam os meios". Esta afirmativa é muito comum, mas nem sempre podemos dizer que é acertada.

Ouvimos, recentemente, essa desculpa de alguém que tentava ajudar um amigo, usando de expedientes ilegais e imorais.

No seu modo de pensar, ele entendia que se o fim objetivado é nobre, os meios utilizados para atingi-lo, estão justificados.

No entanto, esse tema merece uma reflexão mais detida.

Se alguém comete um crime, por exemplo, e contrata um advogado para defender seus direitos de cidadão, e esse profissional usa de recursos que contrariam o fim visado, que é fazer justiça, comete um ato extremamente contraditório.

Um profissional do direito tem, em primeiro lugar, que observar a situação como um todo, e não apenas partes dela.

Se o seu trabalho é fazer com que a justiça aconteça, não será cometendo outras tantas injustiças que ele terá cumprido o seu dever.

O fim, nesse caso, não justifica os meios, porque estes se chocam contra o fim.

Assim também acontece nos sistemas carcerários de nosso país, em que se visa a correção do delinqüente utilizando-se os meios mais impróprios para tal.

Enquanto o homem não despertar sua consciência para essa realidade, suas ações em busca da justiça vão resultar nulas.

Se a intenção é nobre, os meios utilizados devem ser também nobres, justos e morais.

Uma tese só pode ser derrubada por uma antítese. Caso contrário será reforçada ao invés de anulada.

O homem tem vivido com essas contrariedades e também acaba sendo vítima das suas próprias incoerências.

O ser humano deseja, ardentemente, ser amado e respeitado, ter seus direitos garantidos e seu bem-estar conquistado.

No entanto, acaba sendo vítima de si mesmo, nessa ânsia de chegar aos fins sem atentar muito para os meios utilizados.

Poderíamos dizer, até, que o próprio homem também acaba sendo usado como um mero meio para se chegar aos fins desejados.

É o que acontece, em tese, numa boa parte das organizações modernas.

"No mundo civilizado, das organizações, será possível ter reverência pelo próximo?"

Na lógica das organizações não há "próximos" nem amigos. A lógica das organizações diz: cada funcionário é apenas um meio para o fim da organização, não importa quão grandioso ele seja!

Não importa quantos anos de sua vida ele tenha dedicado à empresa...

Não importam os seus sonhos, suas esperanças, seus planos para o futuro... Suas necessidades.

Se hoje não é mais um meio útil para se atingir os lucros desejados ou se está pesando na folha de pagamentos, ele é simplesmente descartado.

... Como qualquer outra máquina que tenha se tornado inútil!

Nesse caso, como em tantos outros, podemos afirmar que os fins não justificam os meios...

Um ser humano não é um meio. Sua felicidade plena é o fim almejado pelo Criador.

Pense nisso!

Os fins nem sempre justificam os meios.

É preciso que os meios sejam coerentes com os fins objetivados.

Não se pode combater um mal com um mal maior ou equivalente.

E, acima de tudo, é preciso que o homem não seja, jamais, usado como meio para se chegar a fins que não tenham relação direta com a sua felicidade e progresso intelecto-moral.

Pensemos nisso!



Equipe de Redação do Momento Espírita com base em texto de Rubem Alves extraído do livro O amor que acende a lua, cap. Em defesa da vida, Ed. Papirus.







Foto: Mensagens e carinhos

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