segunda-feira, 19 de agosto de 2013

"Eminente professor negro, interessado em fundar uma escola num bairro singelo, onde centenas de crianças desamparadas cresciam sem o benefício das letras, foi recebido pelo prefeito da cidade que lhe disse imperativamente, depois de ouvir-lhe o plano: - A lei e a bondade nem sempre podem estar juntas. Organize uma casa e autorizaremos a providência. - Mas, doutor, não dispomos de recursos... - considerou o benfeitor dos meninos desprotegidos. - Que fazer? - De qualquer modo, cabe-nos amparar os pequenos analfabetos. O prefeito reparou-lhe demoradamente a figura humilde, fez um riso escaninho e acrescentou: - O senhor não pode intervir na administração. O professor, muito triste, retirou-se e passou a tarde e a noite daquele sábado, pensando, pensando... Domingo, muito cedo, saiu a passear, sob as grandes árvores, na direção de antigo mercado. Lá comentando, na oração silenciosa: - Meu Deus, como agir? Não receberemos um pouso para as criancinhas, Senhor? Absorvido na meditação, atingiu o mercado e entrou. O movimento era enorme. Muitas compras. Muita gente. Certa senhora, de apresentação distinta, aproximou-se dele e tomando-o por servidor vulgar, de mãos desocupadas e cabeça vazia, exclamou: - Meu velho, venha cá. O professor acompanhou-a, sem vacilar. À frente dum saco enorme, em que se amontoavam mais de trinta quilos de verdura, a matrona recomendou: - Traga-me esta encomenda. Colocou ele o fardo às costas e seguiu-a. Caminharam seguramente uns quinhentos metros e penetraram elegante vivenda, onde a senhora voltou a solicitar: - Tenho visitas hoje. Poderá ajudar-me no serviço geral? - Perfeitamente - respondeu o interpelado -, dê suas ordens. Ela indicou pequeno pátio e determinou-lhe a preparação de meio metro de lenha para o fogão. Empunhando o machado, o educador, com esforço, rachou algumas toras. Findo o serviço, foi chamado para retificar a chaminé. Consertou-a com sacrifício da própria roupa. Sujo de pó escuro, da cabeça aos pés, recebeu ordem de buscar um peru assado, à distância de dois quilômetros. Pôs-se a caminho, trazendo o grande prato em pouco tempo. Logo após, atirou-se à limpeza de extenso recinto em que se efetuaria lauto almoço. Nas primeiras horas da tarde, sete pessoas davam entrada no fidalgo domicílio. Entre elas, relacionava-se o prefeito que anotou a presença do visitante da véspera, apresentado ao seu gabinete por autoridades respeitáveis. Reservadamente, indagou da irmã, que era a dona da casa, quanto ao novo conhecimento, conversando ambos em surdina. Ao fim do dia, a matrona distinta e autoritária, com visível desapontamento, veio ao servo improvisado e pediu o preço dos trabalhos. - Não pense nisto - respondeu com sinceridade -,tive muito prazer em ser-lhe útil. No dia imediato, contudo, a dama da véspera procurou-o, na casa modesta em que se hospedava e, depois de rogar-lhe desculpas, anunciou-lhe a concessão de amplo edifício, destinado à escola que pretendia estabelecer. As crianças usariam o patrimônio à vontade e o prefeito autorizaria a providência com satisfação. Deixando transparecer nos olhos úmidos a alegria e o reconhecimento que lhe reinavam nalma, o professor agradeceu e beijou-lhe as mãos, respeitoso. A bondade dele vencera os impedimentos legais. O exemplo é mais vigoroso que a argumentação. A gentileza está revestida, em toda parte, de glorioso poder." (Neio Lúcio)





Poder e ilusão



Ivan era o segundo de três filhos de um burocrata medíocre em Petersburgo, na Rússia.

Formou-se com louvor no curso de Direito, mostrando-se capaz, desde cedo, e muito rígido no que dizia respeito às suas obrigações.

Fortemente atraído por pessoas que estivessem em posições mais altas do que a sua, logo adotava seus modos e pontos de vista, estabelecendo boas relações com elas.

Não tardou para que conseguisse boas colocações profissionais, em razão de sua inegável capacidade somada à influência de amigos poderosos.

Era jovem ainda quando assumiu o cargo de Magistrado de uma Província do Interior.

Sua conduta no trabalho era considerada irrepreensível, inspirando respeito e confiança naqueles que o cercavam.

Embora tratasse as pessoas com cordialidade e educação, sentia-se realmente superior a todas elas.

Agradava-lhe a ideia de que sentiam inveja da sua figura e da sua condição.

Causava-lhe alegria saber que tinha o poder de subjugar os demais e que os outros dependiam dele.

Nunca chegou a abusar de sua autoridade, ao contrário, tentava suavizar o peso dela.

No entanto, a consciência do poder de que dispunha e a possibilidade de amenizar esse efeito só aumentava o fascínio pela posição que ocupava.

Aos olhos do mundo, e de si próprio, era um homem bem-sucedido.

Os anos se passaram rapidamente e, às vezes, Ivan queixava-se de um gosto estranho na boca e uma sensação desconfortável do lado esquerdo do estômago.

No início, ninguém, nem mesmo ele, dava muita atenção a isso.

Entretanto, tal desconforto foi piorando, passando a causar-lhe uma sensação intensa de cansaço e de irritabilidade.

Depois de muito resistir à ideia, decidiu consultar um famoso médico.

Foi recebido pelo profissional com a mesma frieza e com o mesmo ar de superioridade que ele costumava utilizar no Tribunal.

Suas perguntas eram respondidas de modo pouco esclarecedor.

Apesar da atitude evasiva do médico, Ivan pôde chegar à conclusão de que sua situação não era nada boa.

Além disso, com o passar dos dias, ele concluiu que sua dificuldade não fazia a menor diferença para os demais.

Sua dor, sua angústia só atingiam realmente a ele próprio.

Subitamente ele percebeu que o poder, de que até então se orgulhava, era nada diante da situação em que se via.

Nem os tratamentos, nem os remédios utilizados lhe proporcionavam qualquer melhora.

As dores eram cada vez mais intensas e o mal-estar com grande frequência.

Sem demora Ivan deu-se conta de que estava morrendo e desesperou-se.

Afinal, de que valia todo seu prestígio, toda a sua influência e toda a sua riqueza?

De nada.

Sua dor o igualava a todos os demais homens.

Fazia com que ele percebesse como havia sido tolo durante toda a vida.

Seu poder era uma ilusão e sua superioridade, apenas uma quimera.


*   *   *

Todos temos tarefas a realizar e deveres a cumprir na obra do Criador.

Por isso, muitos de nós detemos facilidades e recursos materiais das mais variadas ordens, de maneira provisória.

São oportunidades de crescimento. Não significam que sejamos superiores ou melhores do que ninguém.

Cabe-nos fazer bom e devido uso desses abençoados recursos, sem distorções de finalidade, nem ilusões.

Pensemos nisso.




Redação do Momento Espírita, com base no livro A morte de Ivan Ilitch, de Léon Tolstoi, ed. Manole.Em 18.10.2011



Foto: Recomendo -> B1scate






Foto: Acesse nosso site: www.mensagenslindas.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigada por comentar!
Adorei!
Com estima e apreço,
Myrna.