quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

"Certo fazendeiro, muito rico, chamou o filho de quinze anos e disse-lhe: - Filho meu, todo homem apenas colherá daquilo que plante. Cuida de fazer bem a todos, para que sejas feliz. O rapaz ouviu o conselho e, no dia imediato, muito carinhosamente alojou minúsculo cajueiro em local não distante da estrada que ligava o vilarejo próximo à propriedade paternal. Decorrida uma semana, tendo recebido das mãos paternas um presente em dinheiro, foi à vila e protegeu pequena fonte natural, construindo-lhe conveniente abrigo com a cooperação de alguns poucos trabalhadores, aos quais recompensou generosamente. Reparando que vários mendigos por ali passavam, ao relento, acumulou as dádivas que recebia dos familiares e, quando completou vinte anos, edificou reconfortante albergue para asilar viajores sem recursos. Logo após, a vida lhe impôs amargurosas surpresas. Sua Mãezinha morreu num desastre e o Pai, em virtude das perseguições de poderosos inimigos na luta comercial, empobreceu rapidamente, falecendo em seguida. Duas irmãs mais velhas casaram-se e tomaram diferentes rumos. O rapaz, agora sozinho, embora jamais esquecesse os conselhos paternos, revoltou-se contra as idéias nobres e partiu mundo a fora. Trabalhou, ganhou enorme fortuna e gastou-a, gozando os prazeres inúteis. Nunca mais cogitou de semear o bem. Os anos se desdobraram uns sobre os outros. Entregue à idade madura, dera-se ao vício de jogar e beber. Muita vez, o Espírito de seu pai se aproximava, rogando-lhe cuidado e arrependimento. O filho registrava-lhe os apelos em forma de pensamentos, mas negava-se a atender. Queria somente comer à vontade e beber nas casas ruidosas, até à madrugada. Acontece, porém, que o equilíbrio do corpo tem limites e sua saúde se alterou de maneira lamentável. Apareceram-lhe feridas por todo o corpo. Não podia alimentar-se regularmente. Perdeu a fortuna que possuía, através de viagens e tratamentos caros. Como não fizera afeições, foi relegado ao abandono. Branquejaram-se-lhe os cabelos. Os amigos das noitadas alegres fugiram dele; envergonhado, ausentou-se da cidade a que se acolhera e transformou-se em mendigo. Peregrinou por muitos lugares e por muitos climas, até que, um dia, sentiu imensas saudades do antigo lar e voltou ao pequeno burgo que o vira crescer. Fez longa excursão a pé. Transcorridos muitos dias, chegou, extenuado, ao sítio de outro tempo. O cajueiro que plantara convertera-se em árvore dadivosa. Encantado, viu-lhe os frutos tentadores. Aproveitou-os para matar a própria fome e seguiu para a vila. Tinha sede e buscou a fonte. A corrente cristalina, bem protegida, afagou-lhe a boca ressequida. Ninguém o reconheceu, tão abatido estava. Em breve, desceu a noite e sentiu frio. Dois homens caridosos ofereceram-lhe os braços e conduziram-no ao velho asilo que ele mesmo construíra. Quando entrou no recinto, derramou muitas lágrimas, porque seu nome estava gravado na parede com palavras de louvor e bênção. Deitou-se, constrangido, e dormiu. Em sonho, viu o Espírito do pai, junto a ele, exclamando: - Aprendeste a lição, meu filho? Sentiste fome e o cajueiro te alimentou; tiveste sede e a fonte te saciou; necessitavas de asilo e te acolheste ao lar que edificaste em favor dos que passam com destino incerto... Abraçando-o, com ternura, acrescentou: - Por que deixaste de semear o bem? O interpelado nada pôde responder. As lágrimas embargavam-lhe a voz, na garganta. Acordou, muito tempo depois, com o rosto lavado em pranto, e, quando o encarregado do abrigo lhe perguntou o que desejava, informou simplesmente: - Preciso tão-somente de uma enxada... Preciso recomeçar a ser útil, de qualquer modo." (Neio Lúcio)

Rio do esquecimento


 
O célebre filósofo Platão narra que um pastor de nome "Er", da região da Panfília, morreu e foi levado para o reino dos mortos.
Ali chegando, encontra as almas dos heróis gregos, de governantes, de artistas, de seus antepassados e amigos.
Ali, as almas contemplam a verdade e possuem o conhecimento verdadeiro.
Er fica sabendo que todas as almas renascem em outras vidas, para se purificarem de seus erros passados, até que não precisem voltar à Terra, permanecendo na eternidade.
Antes de voltar ao nosso mundo, as almas podem escolher a nova vida que terão.
Algumas escolhem a vida de rei, outras a de guerreiro, outras a de comerciante rico, outras a de artista, outras a de sábio.
No caminho de retorno à Terra, as almas atravessam uma grande planície por onde corre um rio, o Lethé - que em grego quer dizer esquecimento - e bebem suas águas.
As que bebem muito, esquecem toda a verdade que contemplaram. As que bebem pouco, quase não se esquecem do que conheceram.
As que escolheram vida de rei, de guerreiro ou de comerciante rico, são as que mais bebem das águas do esquecimento.
As que escolheram a sabedoria são as que menos bebem.
Assim, as primeiras dificilmente se lembrarão, na nova vida, da verdade que conheceram, enquanto as outras serão capazes de lembrar e ter sabedoria, usando a razão.
A alegoria platônica nos dá margem para muitas reflexões.
Primeiramente, percebemos claramente a consciência do filósofo sobre a preexistência da alma, e sua conseqüente imortalidade.
Em alguns outros textos do pensador vamos encontrar esta verdade clara, conhecida através da razão.
Vemos também aqui retratado muito bem o processo do esquecimento do passado.
A metáfora platônica se encaixa com perfeição no pensamento espírita, quando nos fala que passamos por este processo de esquecimento do passado, antes de entrarmos novamente na carne, antes de reencarnarmos.
Allan Kardec, ao estudar com os Espíritos este tema, recebe o seguinte comentário:
"Não temos, é certo, durante a vida corpórea, lembrança exata do que fomos e do que fizemos em anteriores existências.
Mas temos de tudo isso a intuição, sendo as nossas tendências instintivas uma reminiscência do passado."
Vemos, assim, que temos a intuição dos objetivos que nos trazem aqui.
Porém, o conto platônico deixa claro que são as atitudes dos homens na Terra, seus valores, seus objetivos, seus desejos que os fazem mais ou menos acessíveis às verdades eternas.
Aqueles que escolhem atividades que lhes incitam à vida sensual, ao materialismo, acabam por perder este contato com a verdadeira vida, a vida do Espírito.
Conhecer, diz Platão, é recordar a verdade que já existe em nós.
É despertar a razão para que ela se exerça por si mesma.
Toda vez que nos dedicamos a trabalhar o Espírito, que nos envolvemos em atividades que nos fazem crescer moralmente, estamos permitindo o acesso às verdades maiores do Universo.
Amar e aprender são ações diárias fundamentais.
Busquemos na intimidade de nossos corações, e com o auxílio dos amigos espirituais, os objetivos específicos que trouxemos para esta vida nova.
Busquemos a verdade...
 


 
Redação do Momento Espírita com base em trecho da obra República, de Platão, livro X, de 614b a 621b e no item 393, de O livro dos espíritos, de Allan Kardec, ed. Feb.
 
 
 

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