sexta-feira, 16 de novembro de 2012

"Muitas aflições resultam de nossa inadaptação à realidade. É que ainda, em nosso estágio evolutivo, é muito difícil sabermos ter sem reter. Se observamos a vida, com as lentes da compreensão mais alta, reconheceremos que tudo quanto acreditamos possuir, temos recebido e estamos recebendo da Divina Providência, em regime de usufruto. A própria vida se encarrega de nos mostrar a inexistência da posse em caráter definitivo. Entendemos o sentido legítimo da propriedade, na Terra, e respeitamos as leis que lhe ofertam garantia. Notamos, entretanto, que toda propriedade, com variações de tempo, se transfere, entre os homens, de determinadas mãos para outras. Aquilo que, no pretérito, pertenceu aos nossos antepassados, nem sempre agora permanece sob o controle dos nossos descendentes. As criaturas mais queridas estão vinculadas a fichas cármicas diferentes das nossas. Os companheiros mais estimáveis estão submetidos a provas que desconhecemos. Paisagens que considerávamos, ontem, por deleitosos retiros, encontram-se hoje transformadas por aqueles que nos substituíram, no Plano Físico. À vista disso, recebamos todos os acontecimentos, tais quais são, cultivando o bem que se nos faça possível, sabendo que, em quaisquer crises da existência, nos problemas que se mostrem inacessíveis à nossa capacidade de solução, devemos entregar a Deus tudo o que a vida nos cedeu, por empréstimo, trabalhando e servindo sempre. No sustento de nossa própria paz, estejamos conscientes de que a lei da mudança funciona em toda parte, em nome do Criador, não para que haja sofrimento e, sim, para que se realize o melhor." (Emmanuel)



Telha de vidro


 
 
Nem sempre a vida segue o curso que se deseja, que se espera. Assim foi com Rachel.
Depois da morte de seus pais, ela, ainda bem moça, deixou a cidade em que nascera para morar na fazenda, com os tios que mal conhecia.
Moraria na casa que havia sido construída por seu bisavô, há muito tempo. Era uma casa muito antiga e a maior parte dos móveis eram peças pesadas e escuras que ali estavam há mais tempo do que as pessoas saberiam dizer.
Seus tios eram pessoas simples, acostumados com a vida que sempre viveram, desconfiados com tudo que pudesse alterar a rotina que lhes dava segurança.
A chegada de Rachel representou para eles um certo transtorno.
Onde ficaria instalada a menina?
Como não havia um cômodo mais apropriado, deram-lhe um quarto pequeno, que ficava no sótão.
Nem o tamanho reduzido, nem o cheiro de mofo incomodaram Rachel.
O que lhe entristecia naquele quartinho abafado era apenas o fato de não ter janelas.
Não se podia ver o sol, nem o céu, nem as árvores do quintal ou as flores do jardim.
A luz limitava-se a entrar timidamente pela porta. A falta de claridade naquele quartinho parecia encher ainda mais de tristeza o coração dolorido da moça.
Até que um dia, depois de muito ter chorado em silêncio, Rachel, decidida a voltar a sorrir, pediu que lhe trouxessem da cidade uma telha de vidro.
Um pouco desconfiados, seus tios acabaram cedendo. Daí, um milagre aconteceu.
Mesmo sem janelas o quarto de Rachel, antes tão sombrio, passou a ser a peça mais alegre da fazenda.
Tão claro que, ao meio-dia, aparecia uma renda de arabesco de sol nos ladrilhos vermelhos que, só a partir de então, conheceram a luz do dia.
A lua branda e fria também se mostrava, às vezes, pelo clarão da telha milagrosa. E algumas estrelas audaciosas arriscaram surgir no espelho onde a moça se penteava.
O quartinho que era feio e sem vida, fazendo os dias de Rachel cinzentos, frios, sem luar e sem clarão, agora estava tão diferente...
Passou a ser cheio de claridade, luzes e brilho. Rachel voltou a sorrir.
Toda essa mudança só porque um dia ela, insatisfeita com a própria tristeza, decidiu colocar uma telha de vidro no telhado daquela casa antiga, trazendo para dentro da sua vida a luz e a alegria que faltavam.
* * *
Muitas vezes, presos a hábitos antigos e em situações consolidadas, deixamos de lado verdades que nos fazem felizes.
Deixamos que a ausência de janelas em nossa vida escureça nossas perspectivas, enchendo de sombras o nosso sorriso e o nosso cotidiano.
Vamos nos acomodando, aceitando estruturas que sempre foram assim e que ninguém pensou em alterar, ou que não se atreveu a tanto.
Mudanças e reformas são necessárias e sadias.
Nem todas dão certo ou surtem o efeito que desejaríamos, porém, cabe-nos avaliar a realidade em que nos encontramos e traçar metas para buscar as melhorias pretendidas.
Não podemos esquecer, porém, que em busca de nossos sonhos de felicidade não devemos simplesmente passar por cima do direito dos outros.
Nesse particular, cabe-nos lembrar a orientação sempre segura de Jesus, que devemos fazer aos outros aquilo que gostaríamos que nos fizessem.
 


 
Redação do Momento Espírita, com base no poema Telha de vidro, de Rachel de Queiroz.
Em 10.08.2009.

 
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